


Mano Ely,
Li, com todo carinho e atenção, as provas do seu livro
"YANOMAMI, UM GRITO NAS SELVAS ", navegando por entre centenas
e centenas de correções, de anotações à
margem de cada folha, como um pirangueiro que se perde do rio, em meio
a igarapés e lagoas. Ainda assim, achei o rumo, meio tonto e embasbacado,
do caminho de volta, para entender sua obra.
No entanto, na medida em que eu ia me desvenciliando
dos meandros das correções e anotações marginais,
eu fui mergulhando na sua história, nas suas personagens, comecei
a navegar com você. E, mano, não sei o que lhe dizer.
Estou literalmente pasmo!
Por primeiro, não entendi bem o porquê
de todo aquele começo, em Paris, do Giba querendo realizar um filme
sobre a vida de Santos Dumont...e toda aquela maluquice de misturar o
passado à ação presente. E mais, o encontro de Giba
com sua Gisele.
Depois, no decorrer da leitura do que vinha adiante,
ví você na pele dele, querendo realizar seus sonhos, que
são tantos. O homem pode voar, ele provou.
E você não tem feito outra coisa
na vida : voar, sonhar...voar...e sonhar.
Você é um sonhador, mano. E por ser
assim, como Deus lhe fez, é que você foi capaz de pesquisar
tanto, de mergulhar tanto, de saber tanto para poder contar, tão
bem como nos conta esta história. Não só conta os
nossos problemas, mas também os problemas da Europa, do primeiro
mundo. O terror que foi Chernobyl, a matança das baleias e focas,
o emporcalhamento dos rios e mares daquele mundo.
Eu mesmo me espantei com os relatos que você
faz, do garimpo naqueles sertões brasileiros, mas sei que são
verdadeiros. A busca do sonho de enricar fácil, faiscando nos igarapés,
cavando meio palmo de terra, e o ouro que tem que ser conquistado, mesmo
que isso custe a vida dos rios, das matas e dos Yanomami, o outrora povo
da floresta...E este sonho acaba, as vezes, custando as próprias
vidas daqueles garimpeiros de esperanças, como você nos mostra.
E as personagens?!
São tantas, e tão ricas, e tão
diversas que, cada uma delas praticamente daria uma história.
Entendo também que você suou em cima deste seu livro, ao
longo destes três anos, fazendo dele não apenas uma bela
obra de ficção, mas também um documentário
saboroso sobre a vida, os usos e costumes da nação Yanomami.
Também o dia a dia tenebroso naqueles garimpos.
Ah, que delícia que é caminhar com
seus índios nas selvas, sentir aquela liberdade, ver como eles
se amam, como vivem, com o que sonham, e como sofrem, como nós,
a perda de seus entes queridos. Sente-se o frescor e a grandeza das matas,
ouve-se o canto dos pássaros, o ruído da Cachoeira dos Espíritos
e a risada de Yana e outras índias, nadando, brincando na lagoa,
como crianças que, na verdade, elas ainda são. Ah, que inveja
daquela liberdade, daquele verde...daquela vida.
Encontrei, nas suas páginas, argumento
não para um, mas para vários roteiros de cinema. E que telenovela
daria a sua trama!
Você, que passou a vida inteira escrevendo
e desenhando para crianças, e nisso sempre foi um mestre, agora
realiza uma obra de gente grande para gente grande. E com a mesma maestria.
Yanomami, Um Grito nas Selvas revela, de vez.
o grande autor que você sempre foi. A leitura prende pela riqueza
das ações, pelo suspense que você arma e pelos diálogos,
que, como já lhe disse, você sabe conduzir com rara felicidade.

BENEDITO RUY BARBOSA
Autor de 23 novelas de grande sucesso para a TV,
entre elas: Sinhá Moça, Paraíso, Os Imigrantes,
Vida Nova, Pantanal, Renascer, Terra Nostra e,
atualmente em exibição na TV Globo, Esperança.
